Novas gramáticas
sexuais
Introdução
Esta apresentação pretende reflectir sobre o alargar do campo das práticas críticas anti-heteronormativas. Práticas queer ou práticas anti-heteronormativas são práticas que expõem a ficção ideológica que consiste em estabelecer uma relação de causalidade entre o sexo anatómico, o género e o desejo sexual. São práticas que denunciam estas relações de causalidade como sendo apenas uma das gramáticas possíveis do sistema sexo/género, mas não a única. O exercício destas práticas são aquilo a que Beatriz Preciado chamou no seu Manifesto Contra-sexual de contra-sexualidade. A contra-sexualidade pretende portanto contribuir para uma nova gramática sexual, de significações menos fixistas e mais transitivas. Mas a forma como considera possível realizar este trabalho crítico não é através duma crítica da linguagem, mas sim através da prática de novas inscrições corporais, inscrições essas que começam por ser citações subversivas da gramática sexual existente.
Quand la contra-sexualité parle du systéme sexe/genre comme d’un systéme d’écriture des corps comme textes, ellle ne propose pas pour autant des interventions politiques abstraites qui se réduiraient à des variations de language. Ceux et celles que l’inspiration littéraire enivre dans leur tour d’ivoire, qui réclament à cor et à cri l’utilisation de la barre dans les pronoms personels (j/e) ou qui prônent l’éradication des marques du genre dans les substantifs et les adjectifs réduisent la textualité et l’écriture à leurs résidus linguistiques, oubliant les technologies d’inscription qui les rendent possibles. (p. 25)
A novidade é que a resistência em Preciado não é meramente linguística e teórica, nem meramente de re-organização da sociabilidade (como propõe o último Foucault). Preciado considera que, se levarmos a sério a ideia de que existem tecnologias que inscrevem determinadas gramáticas nos corpos, produzindo-os como corpos sexuados, podemos colocar como caminho crítico possível novas práticas corporais, práticas essas que citam subversivamente a gramática dominante. Essa citação subversiva passa pela transitivização de signos que se apresentam como falsamente fixos.
O
corpo (tecnologicamente) inscrito
Preciado considera que a leitura do biológico como um sistema comunicativo de inscrição deriva da noção aristotélica de “organon”:
Le terme “organon” vient du grec “ergon” qui désigne l’intrument ou la pièce reliée à d’autres pieces qui est necessaire pour accomplir un certain processus régulé. Selon Aristote “tout art (tekhné) a besoin de ses propres instruments (organon)”. (…) Un “organon” est une technologie textuelle de codage-décodage. (…) D’une certaine maniére, c’est la prothése (…) et non l’ “organe” vivant qui est fondatrice de l’ “organon”. (p.115/116)
Enquanto lugar de inscrição o órgão tem que ser antecedido por uma gramática, uma prótese tecnológica, que estabeleça possibilidades significativas dessa inscrição. Isto significa que nenhum órgão existe por si, nenhum órgão tem em si as suas possibilidades significativas.
“Les organes sexuels en tant que tels n’existent pas.” (p. 27) e as relações heterosexuais onde adquirem significação são “(...) contexts sexuels (...) établis par le biais de délimitations spatiales et temporelles” (p. 27) o que tem como consequência que “L’architecture en soi est politique.” (p. 27) Mas não é só na gestão dos espaços públicos/privados que influi a heteronormatividade. Ela influi na própria arquitectura corporal: “L’architecture corporel est politique.” (p. 28)
Esta arquitectura tem como cânone central a diferenciação sexual:
En tant qu’organe et en tant que pratique, le sexe n’est ni un lieu biologique précis ni un pulsion naturelle. En fait, le sexe est une technologie de domination hétérosociale qui réduit le corps à des zones érogènes en function d’une repartition asymétrique du pouvoir selon les genres (feminin/masculin), de manière à ce que coïncident certains affects avec certaines organes, certaines sensations avec certaines réactions anatomiques. (p. 24)
Esta repartição assimétrica dos papéis e práticas sexuais visa, numa citação que Preciado faz de Wittig “l’exploitation matérielle d’un sexe sur l’autre (Monique Wittig, 1989)” (p. 24). Mais explicitamente:
Les homes et les femmes sont des constructions métonymiques du système heterosexual de production et de reproduction qui autorise l’assujetissement des femmes en tant que force de travail sexuel et moyen de reproduction. (p. 24)
A própria selecção de certas zonas como órgãos, como locais privilegiados de inscrição significativa, é política:
La technologie sexuelle est une sorte de tesoura “table d’opération” tesoura abstraite (...) qui est à l’origine du découpage de certaines zones corporelles comme organes (...). C’est sur cette table à double entrée (masculin/féminin) que l’identité sexuelle est définie, toujours et à chaque fois, non à partir de données biologiques mais par rapport à un certain a priori anatomico-politique, une sorte d’impératif qui impose la cohérence du corps comme sexué. (p. 92)
Essa inscrição sexual não inscreve somente determinados órgãos mas contamina todo o corpo, impõe a todo o corpo uma coerência na diferenciação sexual:
La table d’assignation de la masculinité et de la féminité désigne les organes sexuels comme étant des zones génératives de la totalité du corps, les organes sexuels étant des zones périphériques. (...) Ainsi donc, les organes sexuels ne sont-ils pas seulement des “organes reproducteurs” au sens où ils permettent la re-production sexuelle de l’espéce mais ils sont aussi et surtout des “organs producteurs” de la coherence du corps sex(ué). (p. 94/5) [negritos da autora]
Não só são todos os corpos socialmente construídos [“Le corps est un texte socialement construit (...), p. 25] como homens ou mulheres (não só no género, como nos afectos e sensações) como também têm de ser socialmente inscritas/incorporadas as práticas desses corpos sexualmente diferenciados, as práticas heterosexuais:
L’(hétéro)sexualité, loin de surgir spontanément de chaque corps nouveau-né doit être ré-inscrite ou ré-instituée à travers des opérations constantes de répétition et de re-citation des codes (masculin et feminin) socialement investis comme naturels (Judith Butler, 1993). (p. 25)
A configuração falsamente naturalista de certas práticas (como) sexuais, nomeadamente heterossexuais, nasce duma clara delimitação das fronteiras e das exclusões:
L’exclusion
de certaines relations entre genres et sexes et ainsi que la désignation de
certaines parties du corps comme non-sexuelles (…) sont les opérations
basiques du figement naturalisant des pratiques que nous reconnaissons comme des
pratiques sexuelles. (p. 27/8)
A
gramática sexual dominante
Não se trata portanto de procurar outro centro significante dentro da mesma gramática sexual (acusação que Preciado faz às lésbicas separatistas, que procurariam estruturar o corpo a partir duma ausência fálica mas dentro da mesma lógica gramatical), mas sim de estruturar toda uma outra gramática, mostrando que existe um falso centro que não o é, desmultiplicando-o, recusando enunciá-lo como centro – uma sexologia negativa co-produzida por uma gramática com significantes transitivos.
De la même maniére qu’il existe une théologie négative, il existe aussi une sexologie négative qui procède par l’exclusion du centre que le patriarcat a défini comme centre de signification et qui diabolise la recitation – pourtant différée – du pénis. La théorie lesbienne séparatiste qui critique l’utilisation du gode, en ce qu’il entretiendrait une complicité avec les signes de la domination masculine, croit encore a la réalité du pénis comme sexe. Dans cette érotique hyperféminisante, c’est l’absence qui structure le corps suivant un schema monocentriue et totalisant qui est précisement le meme que le modèle phallocentrique qui est incriminé. (...) Ces théories courent le risque de restructurer le corps à partir d’un autre centre vide alors qu’elles pourraient nier le centre comme centre en le démultipliant jusqu’à ce que la notion même de centre n’ait plus de sens. (p. 69/70)
O signo fixo e falsamente
inaugurador da gramática sexual dominante (porque é apenas um órgão/signo
que necesita dum significante prévio para significar – o dildo) é o pénis.
Nesse sentido, nas práticas de re-citação subversiva da gramática sexual
dominante é dada particular atenção às variações sintáticas e semânticas
que pode fazer-se sofrer ao dildo, como re-citação subversiva do lugar central
do pénis no sistema de poder heterocentrado:
La
centralité du pénis comme axe de signification du pouvoir dans le cadre du
système hétérocentré requiert un immense travail de re-signification et de déconstruction.
C’est pourquoi, pendant la première période d’établissement de la société
contra-sexuelle, le gode et toutes ses variations syntaxiques – telles que les
doigts, les langues, les vibromasseurs, les concombres, les carottes, les bras,
les jambes, les corps entiers, etc. – ainsi que ses variations sémantiques
– telles que les cigares, les flingues, les bâtons, l’argent, etc. –
seront utilisés par tous les corps ou sujets parlants dans le cadre de contrats
contra-sexules réversibles et consensuels. (p. 33/34)
De notar que estas re-citações
são temporárias e dizem respeito a um período transitório, provavelmente até
serem colocadas em circulação tecnologias, de igual valor social, não-fálicas
– por exemplo anais, mas não só.
A godotectónica é assim apresentada por Preciado como um ramo prioritário da contra-sexualidade. A palavra “godotectónica”, diz a autora, deriva das palavras “Godo”, abreviatura de “godemiché” e do grego “tekton”, que significa construtor, genitor (como em pro-genitor). O que constrói o “godo”/dildo? Uma re-interpretação subversiva do sistema sexo/género.
La godotectonique est la contre-science qui étudie l’apparition, la formation et l’utilisation du gode. Elle repére les deformations qu’inflige le gode au systéme sexe/genre. (p. 42)
E como se relaciona o dildo com o corpo para fazer dele re-citação subversiva? Através de deslocações e colocações no corpo desse dildo, dildo esse que o corpo utiliza quando pratica sexo – ou talvez simplesmente quando pratica, algo a que não se sabe se se poderá continuar a chamar sexo.
Faire de la godotectonique une branche prioritaire de la contra-sexualité suppose de considérer le corps comme superficie, terrain de déplacement et d’emplacement du gode. (p. 42)
Isto porque há que subverter o que se apresenta como único eixo semântico, e fixo, da gramática sexual dominante:
Dans
le cadre du régime hétérocentré, le corps peut être compris comme un texte
organisé autour d’un seul axe sémantique (le pénis-gode) dont l’activité
sexuelle s’effectue en excitant mécaniquement un centre nominatif unique. (...)
Cet exercice est basé sur la re-nomination de certaines parties du corps (dans
ce cas, il s’agit d’un avant-bras) grace à une operation de citation que
j’appelle inversion.
Par inversion, je me réfère à une operation de citation textuelle qui investit l’axe sémantique du systéme hétérocentré. Investir au sens économique du terme (qui le fait marcher, qui le force à produire dans l’attente d’un certain bénéfice), et au sens politique du terme (qui donne l’autorité de faire quelque chose). Cette opération de citation déplace la force performative du code hétérocentré pour finalement “inverser”, provoquer une per-version de direction des effets de producton sexuelle. (p. 48/49) [negrito da autora]
A inversão consiste portanto numa re-nomeação, mas também num deslocamento de um centro nominativo que se apresenta como único, como referencial transcendental de significação único e fixo; consiste igualmente em aproveitar o potencial produtivo desse eixo semântico para o fazer produzir outros efeitos, outras (per)versões do seu significado.
Como exemplo dessas re-citações subversivas a autora reproduz uma série de imagens desenhadas que possibilitam uma série de práticas contra-sexuais:
- na p. 43 a imagem do próprio sujeito em pé (é ele o dildo); outra figura com um dildo dentro dum ante-braço; outra com um dildo dentro da perna e outro dentro do peito do pé; outra com um dildo dentro da parte superior duma mama; outra com um dildo no lugar do pénis.
- na p. 47 um dildo atado à parte de trás de um sapato de salto alto
- na p. 50 um dildo dentro de um antebraço de mão caída
- na p. 51 um dildo dentro dum antebraço de mão elevada, antebraço esse a ser massajado
- na p. 53 um sujeito dildo em pé a ser rapado de cabelo na cabeça; outro sujeito dildo em pé mais em baixo
- na p. 54 o mesmo sujeito dildo em pé de cabeça rapada a ser massajado na cabeça e pescoço
- na p. 55 o mesmo sujeito dildo em pé de cabeça rapada a ser massajado e a soltar um “Ahh”
A desmaterialização do dildo em significante transitivo/significados polimorfos é tal que a autora pode afirmar que “Il remet en question la possibilité de considérer naïvement le corps comme contexte propre de la sexualité” (p. 71) [negritos da autora]. Ou conforma afirma imediatamente antes: “Signification décontextualisée, citation subversive, le gode renvoie à l’impossibilité de délimiter un contexte” (p. 71) [negritos da autora]. Nenhum contexto é mais natural do que outro para produzir significação sexual. O contexto ilimitado, a produção transitiva, descentrada e ilimitada de significações, é esse o verdadeiro campo da sexualidade.
Outros
exemplos de práticas contra-sexuais
As primeiras práticas contra-sexuais de resistência não incluem somente o dildo. Elas incluem “(...) l’utilisation des godes, l’érotisation de l’anus et l’établissement de relations SM contractuelles, entre autres exemples.” (p. 27).
O “trabalho do ânus” tem um papel especial a cumprir:
L’anus présente trois caractéristiques fondamentales que en font le centre transitoire d’un travail de déconstruction contra-sexuelle. Un: l’anus est un centre érogéne universel situé au-delà des limites anatomiques imposées par la différence sexuelle et où les rôles et les registres apparaissent comme universellement réversibles (qui n’a pas d’anus?). Deux: l’anus est une zone de passivité primordiale, un centre de production d’excitation et de plaisir qui ne figure pas sur la liste des points orgastiques prescrits. Trois: l’anus constitue un espace de travail technologique; c’est une usine de refabrication du corps en tant que contra-sexuel. Le travail de l’anus ne vise pas la reproduction et ne se fonde pas sur l’établissement d’un lien romantique. Il génère des bénéfices qui ne peuvent être mesurés à l’interieur d’une economie heterocentrée. (p. 28)
Podemos assim considerar que o ânus possui várias características que permitem criticar esta economia e reconstruir outra gramática do corpo sexual:
- a sua universalidade ou não diferenciação
- a sua anterior exclusão duma actividade sexual
- a sua anterior exclusão do prazer
-
a inexistência de efeitos reprodutivos quando sexualizado
-
a não promoção de efeitos românticos quando sexualizado
O trabalho do ânus permite ainda outra coisa: a temporária analização de qualquer órgão ou parte do corpo, a sua transitivização sígnica enquanto lugar de acção-paixão, da mesma forma que o trabalho do dildo permite a sua temporária dildificação. Qualquer parte do corpo contra-sexual pode ser assim anal ou dildificada.
La
récupération de l’anus comme centre contra-sexuel de plaisir a des points
communs avec la logique du gode: chaque lieu du corps est non seulement un plan
potentiel où le gode peut être translaté mais aussi un orifice-entrée, un
point de fugue, un centre de décharge, un axe virtuel d’action-passion. (p.
28)
Outra característica central da economia heterocentrada
é o facto dela se basear em contratos tácitos não consensuais e para a vida. Nesse
sentido, outras práticas e saberes práticos sexuais são considerados pela
autora importantes para contra-disciplinar esta economia: os saberes práticos
das comunidades SM, os seus contratos sexuais temporários.
La
société contra-sexuelle se fait l’héritiére du savoir pratique des
communautées SM et adopte le contrat contra-sexuel temporaire comme forme
privilégiée pour établir une relation contra-sexuelle. (p. 29)
No que à paródia e simulação
dos efeitos do orgasmo diz respeito, trata-se principalmente de negar as
localizações habituais, no espaço e no tempo, do prazer, combatendo assim a
arquitectura política heterocentrada do corpo heterossexual:
L’orgasme,
efect paradigmatique de la production-répression hétérocentrée des corps,
qui opére par le biais d’une fragmentation et d’une isolation des zones
corporelles, sera systématiquement parodié grâce à diverses disciplines de
simulation et à des répétitions en série des effets traditionnelment associées
à l’orgasme (à
les pratiques d’inversion contra-sexuelles). La simulation de l’orgasme vaut
pour un déni des localisations spatiales et temporelles habituelles du plaisir.
Cette discipline contra-sexuelle va dans le sens d’une transformation générale
du corps similaire aux conversions somatiques aux pratiques de méditations extrême,
aux rituels proposés dans le body art et dans certaines traditions spirituelles
(Ron Athey, Fakir Mustafa, Zhang Huan, Bob Flanagan etc). (p. 34)
Trata-se portanto de
pressupor a possibilidade duma re-conversão corporal contra-sexual a partir de
determinados exercícios corporais, ou que envolvem posturas corporais específicas.
La contra-sexualité affirme que le désir, l’excitation sexuelle et l’orgasme ne sont que les produits rétrospectifs d’une certaine technologie sexuelle qui identifie les organes reproductifs comme organes sexuels au détriment d’une sexualisation de la totalité du corps. (p. 22)
Este extracto precisa bem que, se existirem outras tecnologias que não identifiquem os órgãos sexuais meramente com os órgãos reprodutores, tecnologias que permitam considerar sexuais outros órgãos que não os reprodutores, nomeadamente todo o corpo, outros produtos/efeitos serão encontrados, produtos/efeitos que des-naturalizarão e des-localizarão o desejo, a excitação sexual e o orgasmo.
Conclusão
Por fim, e a jeito de conclusão, não sendo conclusão de somenos, Preciado vem propor não simplesmente uma posição de sujeito, à maneira da filosofia moderna, mas uma posição de corpo-sujeito. Ora isto faz toda a diferença. Por um lado, saliente-se a prioridade das inscrições no corpo sobre as do sujeito. No entanto, este corpo que tem prioridade é um corpo-sujeito falante (“corps-sujets parlants”, p. 21), não um corpo-matéria ou um corpo-sexo; o corpo que tem prioridade é um lugar, não passivo, de inscrição corporal de significações, de fixação de signos, ambos os processos realizados por tecnologias que circulam socialmente e que constroiem/deslocam, no mesmo movimento, corpos e sujeitos, naturezas e culturas. Esta posição de corpo-sujeito não pode nunca mais ser um mero lugar des-encarnado de enunciação linguística; ela é um lugar de incorporação enunciadora, enunciadora de novos corpos.
Preciado, Beatriz (2000), Manifeste contra-sexuel. Paris: Éditions Balland